01/01/10

FELIZ 2010

a todos os nossos navegantes e àqueles que eles amam e por quem são amados


À VOSSA!
Tchim, tchim!

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31/12/09

OS MEUS POETAS - 130


desenho de adão contreiras*

Cinco horas

Minha mesa no Café,

Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais).

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
- Pois há um ano que fumo -
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente...)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...).

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
- Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
P'ra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

- Cafés da minha preguiça,
Sois hoje - que galardão! -
Todo o meu campo de acção
E toda a minha cobiça.


Paris, Setembro de 1915

Mário de Sá Carneiro
*imagem em margemdois.blogspot.com

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30/12/09

POETAS MEUS AMIGOS -119


monet - les nymphéas

Da transparência

Senhor libertai-nos do jogo perigoso da
[transparência
No fundo do mar de nossa alma não há
[ corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres

Carmen Cynira
http://petalasdealcachofra.blogspot.com/

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29/12/09

LEITURAS - 129


chagall, le cirque

[...]
Sempre ao rufar surdo do tambor o contorcionista se enrolava, sempre o volteador se fazia anunciar por uma fanfarra de trombetas. Augusto, porém, umas vezes era o silvo agudo de um violino, outras as notas trocistas de um clarinete que o acompanhavam durante o cabriolar de suas palhaçadas. Mas chegado o momento de cair em transe, os músicos, subitamente inspirados, perseguiam-no entre suas espirais de êxtase como corcéis grudados à plataforma de um carrossel tomado de loucura.Todas as noites ao aplicar o maquillage, Augusto discutia com seus botões. As focas, não importa o que fossem obrigadas a fazer, permaneciam sempre focas. O cavalo, um cavalo; a mesa, uma mesa. Augusto, embora permanecendo um homem, era obrigado a tornar-se em algo mais: tinha de assumir os poderes de um ser excepcional dotado de um excepcional talento. Tinha de fazer rir as pessoas. Não era difícil fazê-las chorar, tão-pouco fazê-las rir; descobrira isso há muito tempo, antes mesmo de ter sonhado entrar para o circo. Mais altas, porém eram as suas ambições - queria dotar os espectadores de uma alegria que se revelasse imperecível. Foi essa obsessão que primeiramente o levou a sentar-se aos pés da escada e simular o êxtase. Caindo, por mero acaso, na imitação de um transe - esquecera-se do que iria fazer a seguir. Quando voltou a si, um tanto confuso e em extremo apreensivo, encontrou-se a ser aplaudido freneticamente. No dia seguinte repetiu a experiência, desta vez com propósito deliberado, pedindo que o riso louco e absurdo que ele tão facilmente suscitava desse lugar àquela suprema alegria que tanto desejava transmitir. Contudo, apesar do quase fervor dos seus esforços, todas as noites o esperavam os mesmos aplausos delirantes. [...]

Henry Miller, O sorriso ao pé da escada - ed.Asa

(obs.:pode também ser lido na íntegra em http://aguarelast.blogspot.com/)

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28/12/09

PÉROLAS - 184



Garça Branca


Esse grande floco de neve
é uma garça branca que acaba de pousar no lago

[azul.
Imóvel, na extremidade de um banco de areia,
a garça branca
observa o inverno.

Li Po

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